Era 2016 e aquela terça-feira parecia ser de calmaria dentro de um contexto complicado para nossa família. Poucas semanas antes , o meu filho tinha sido atingido pela explosão de um bueiro enquanto participava de uma festa de aniversário, tendo queimaduras principalmente no braço direito e mão direita.
Outros foram atingidos e uma das moças faleceu dias depois, consequência das queimaduras. Meu filho estava internado num hospital, e submetido à limpeza das feridas semanalmente (esfregação, com escova). Este tipo de tratamento era terrivelmente doloroso e alterava absurdamente nosso estado emocional.
Como esperado, eu estava extremamente triste e preocupado, mas tinha que continuar atendendo no consultório. Naquela manhã especificamente eu estava mais sensível que nos demais dias porque iria ser o acompanhante dele no quarto do hospital.
Lá pelas 10 horas, a secretária mandou o próximo cliente entrar na sala de consultas. Era uma mulher preta, bastante obesa e cliente de 1ª vez. Sentouse e comecei a fazer a anamnese dela.
Começou dizendo que tinha Hipertensão Arterial , que usava determinado medicamento, e que não estava fazendo efeito. Examinei-a e constatei que a pressão realmente estava alta e que ela teria que fazer um tratamento continuado e alterar o seu estilo de vida, começando por fazer dieta e exercícios.
Foi nesse instante que ela disse que tinha engordado 20kg nos últimos 3 meses.
Neste momento, eu reclamei:

  • Como a senhora consegue perder o controle e comer tanto, a ponto de engordar tanto em tão pouco tempo?
  • Doutor, eu estava fazendo uma dieta, dentro do possível, mas depois do que aconteceu com minha filha e minha neta, eu perdi o controle.
    E eu, já emocionado com a história, e sem levar em conta o que viria, perguntei:
  • O quê aconteceu?
  • Elas morreram.
    E eu, mais uma vez, me afundei nesse drama:
  • Qual a causa da morte das duas?
    -Elas morreram queimadas, doutor.
    Vocês devem imaginar o choque que eu levei com esse relato. Estava já bastante desgastado por conta do acidente com meu filho, e agora me vem um relato mais cruel ainda, mas fui mais fundo.
    -E como aconteceu isso?
    -O barraco onde elas estavam dormindo pegou fogo e elas estavam usando vela para iluminar o cômodo, porque cortaram a luz por falta de pagamento.
    O relato estava se tornando cada vez mais triste, e eu meio que paralisado
    pela rapidez com que aquilo chegava para mim. E ela seguiu contando:
    -Logo de início, disse ela, fiquei sem prumo, e logo depois resolvi melhorar como ser humano e tornar a vida dos que eu poderia ajudar, menos espinhosa.
    Eu não contei ao senhor que eu trabalho como copeira responsável pelos clientes internados no CTI. A partir do momento em que eu tomei a decisão de ser uma pessoa melhor, passei a conversar um pouco mais com os pacientes, ouvir deles as angustias, as queixas e tentar aliviar seus sofrimentos. Faço isto
    até hoje e consigo me sentir melhor.
    Naquele instante eu já estava quase soluçando, com os olhos marejados e pensando que a minha dor tinha menos razão de ser que a dela. Levantei da cadeira e dei um abraço nela, voltei e terminei aquela consulta, que foi angustiante, mas que me deu um novo ânimo para seguir em frente.
    Depois dessa consulta, a paciente nunca mais apareceu e, se eu fosse místico, acreditaria que essa paciente teria sido enviada exclusivamente para me ensinar o caminho a seguir.
    A propósito, meu filho está bem, ficou com poucas marcas e … vida que segue.
    Alfredo Carlos da Luz Filho
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp

Sobre o Blog

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.

Categorias

Mais postagens

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Subscribe to My Newsletter

Subscribe to my weekly newsletter. I don’t send any spam email ever!